QUARESMA E UMBANDA

Autor:
Lara Lannes
Equipe
Genuína Umbanda
www.genuinaumbanda.com.br
Falar de Umbanda e Quaresma é um tema instigante
e polêmico na medida em que a Quaresma, em si,
não é ritual que faça parte de nossa religião.
No entanto, em virtude do sincretismo religioso,
muitas casas umbandistas adotam esse período
como época de fechar a Casa e suspender o
atendimento de consulentes e prática da
caridade.
Esse
fator histórico teve origem durante o Brasil
Colonial, quando os senhores de engenho e de
escravos tendo como base suas crenças na Igreja
Apostólica Romana, durante a quaresma adotavam a
prática de cobrir suas imagens e fechar suas
Igrejas, entrando em introspecção pelo período
representativo da caminhada de Jesus pelo
deserto.
Pelo
fato dos escravos serem obrigados a esconder seu
culto aos Orixás através do sincretismo,
convencionou-se que durante a quaresma como não
havia culto aos santos católicos, também não
havia culto aos Orixás, passando com o tempo a
Umbanda a incorporar essa tradição, baseando
algumas casas a explicação no fato de que
durante a quaresma os espíritos de luz e
entidades de Umbanda afastam-se do plano Terra,
razão pela qual as casas umbandistas ficariam
impossibilitadas de praticarem a caridade.
Era
assim que os Terreiros fechavam na gira que
precede o Carnaval, cruzando seus filhos com
pemba e com cinza, a fim de proteger a todos dos
fluidos negativos e espíritos inferiores que
circulavam pelo ambiente astral do planeta, só
reabrindo na Sexta-Feira Santa com a cerimônia
do amaci e batismo. Fechava-se o Congá com
cortinas, e cobriam-se as imagens com panos
brancos ou roxos, conforme a tradição católica.
A
palavra Quaresma vem do latim quadragésima e é
utilizada para designar o período de quarenta
dias que antecede a festa ápice do cristianismo:
a ressurreição de Jesus Cristo, comemorada no
famoso Domingo de Páscoa. Esta prática data
desde o século IV. Cerca de duzentos anos após o
nascimento de Cristo, os cristãos começaram a
preparar a festa da Páscoa com três dias de
oração, meditação e jejum. Por volta do ano 350
d. C., a Igreja aumentou o tempo de preparação
para quarenta dias. Assim surgiu a Quaresma.
Na
Bíblia, o número quatro simboliza o universo
material. Os zeros que o seguem significam o
tempo de nossa vida na terra, suas provações e
dificuldades. Portanto, a duração da Quaresma
está baseada no símbolo deste número na Bíblia.
Nela, é relatada as passagens dos quarenta dias
do dilúvio, dos quarenta anos de peregrinação do
povo judeu pelo deserto, dos quarenta dias de
Moisés e de Elias na montanha, dos quarenta dias
que Jesus passou no deserto antes de começar sua
vida pública, dos 400 anos que durou a estada
dos judeus no Egito, entre outras. Esses
períodos vêm sempre antes de fatos importantes e
se relacionam com a necessidade de ir criando um
clima adequado e dirigindo o coração para algo
que vai acontecer.
As celebrações da quaresma têm início no Domingo
de Ramos, ele significa a entrada triunfal de
Jesus, o começo da Semana Santa. Os ramos
simbolizam a vida do Senhor, ou seja, Domingo de
Ramos é entrar na Semana Santa para relembrar
aquele momento. Depois, celebra-se a Ceia do
Senhor, realizada na quinta-feira santa,
conhecida também como o lava pés. Ela celebra
Jesus criando a eucaristia, a entrega de Jesus
e, portanto, o resgate dos pecadores. Depois,
vem a celebração da Sexta-feira da Paixão,
também conhecida como sexta-feira santa, que
celebra a morte do Senhor, às 15 horas. Na sexta
à noite geralmente é feita uma procissão ou
ainda a Via Sacra, que seria a repetição das 14
passagens da vida de Jesus. No sábado à noite, o
Sábado de Aleluia, é celebrada a Vigília Pascal,
também conhecida como a Missa do Fogo. Nela o
Círio Pascal é acesso, resultando as cinzas. O
significado das cinzas é que do pó viemos e para
o pó voltaremos, sinal de conversão e de que
nada somos sem Deus. Um símbolo da renovação de
um ciclo. Os rituais se encerram no domingo,
data da ressurreição de Cristo, com a Missa da
Páscoa, que celebra o
Cristo vivo.
Essa é a
seqüência de atos perpetrados pela Religião
Católica nos rituais que envolvem a quaresma e a
Páscoa. Dessa forma, por mais que esses hábitos
estejam arraigados em nossa cultura, devemos ter
em mente que essas práticas são católicas, não
pertencendo à Umbanda.
Para nós
umbandistas o que importa é que nossa casa deve
estar aberta para atendimento àqueles que
necessitam do socorro espiritual de nossos guias
e entidades. Pelo fato de ter se convencionado
que a quaresma é um período onde as entidades
superiores não trabalham, acaba sendo criado um
ambiente propício à instalação de energias
deletérias e nocivas, próprias de espíritos
atrasados espiritualmente. É por força, portanto
dessa mentalização e crendice popular que
necessitamos da proteção, amparo e
esclarecimento das entidades que nos guardam e
às nossas casas umbandistas. Não pode haver
pausa no socorro espiritual, uma vez que aqueles
que praticam o uso de energias negativas não
tiram férias.
Temos que compreender, aprender e praticar
melhor nossa religiosidade, sem nos deixarmos
influenciar pela religiosidade e costumes
religioso de outras religiões.
“A
tradição de se fechar os Templos de Umbanda
quando não havia liberdade de crença, não tem
razão de ser no mundo atual. Muito ao contrário,
é nessa época que NÃO DEVEMOS PARAR, é nessa
época em que a quimbanda maligna trabalha à
vontade, que o Templo deve estar preparado para,
com o auxílio das Entidades de Luz, denunciar
qualquer trabalho negativo que tenha sido feito
para atrapalhar seus Filhos de Fé ou
freqüentadores. Atualmente, interromper os
trabalhos do Templo na Quaresma é descabido, é
ingenuidade, é desconhecer que os inimigos
trabalham nas trevas e que, se não temos o
Preto-Velho, o Caboclo ou qualquer entidade que
possa nos avisar do mau feito, estaremos
desprotegidos, descobertos, ou seja, nas mãos
dos inimigos. É preciso URGENTEMENTE esclarecer
que a Quaresma não é Afro, é hebraico-europeia,
e que já não é preciso se esconder de ninguém,
pois nossa Constituição nos assegura o direito à
liberdade de crença e os padres já não podem
mais nos queimar nas fogueiras da inquisição.
Por isso, vamos
abrir nossos Templos de Umbanda na Quaresma e
cuidar com amor dos nossos Filhos de Fé. (Babalaô Ronaldo
Antônio Linares -
Federação Umbandista do Grande ABC)”
Voltar ao
índice
