Breves Considerações sobre o surgimento da Umbanda no
Brasil
15 de Novembro
Autor:
Lara Lannes
Equipe
Genuína Umbanda
www.genuinaumbanda.com.br
Para entender o surgimento de nossa religião nas terras
do Brasil, é necessário entender que a Umbanda é uma
crença Universal, cultuada há milênios por diversas
raças e que reúne, em si, elementos dos diversos cultos
existentes em todos os continentes. Por isso se diz que
é uma crença universalista.
Na sua vertente africana, pode-se dizer que quando os
escravos africanos vieram para o Brasil, trouxeram a
cultura de seus Orixás, que representam as energias que
emanam de Deus e que cultuamos também em nossa religião.
Esses escravos tinham consigo a cultura de cultuar seus
Orixás ao pé de árvores que representavam a força de sua
fé, assentando-os em Otás (pedras), razão pela qual ao
serem proibidos por seus senhores de continuarem seus
cultos nas senzalas, passaram a adotar o sincretismo
religioso, inserindo seus otás dentro das imagens dos
santos católicos que conforme sua crença, melhor
representava seus Orixás.
Assim, nas senzalas foram montados altares católicos
onde os sábios negros descendentes de toda uma linhagem
espiritualizada e injustamente escravizados pelos
brancos, associaram os santos católicos aos seus amados
Orixás. São Jorge, por ser guerreiro e aguerrido, passou
a representar o Orixá Ogum (RJ), forte, bravio,
corajoso, senhor do metal, e assim por diante, cada
Orixá passou a ser cultuado nos altares fazendo os
senhores acreditarem ter convertido seus escravos ao
culto católico.
E assim, durante a comemoração aos santos católicos, os
escravos louvavam seus amados Orixás, incorporando
espíritos de Pretos-Velhos, Caboclos, etc. A partir do
momento em que os escravos fugiam, formando quilombos,
com a implantação de Leis como a do Ventre Livre,
Sexagenário, e por fim, a Lei Áurea, os escravos - agora
libertos - passaram a montar seus locais de culto, suas
tendas e posteriormente terreiros, onde podiam
livremente expressar sua crença nos Orixás.
Passo contínuo, começam a surgir, por todo o país, as
Casas de Macumba onde se praticava a incorporação de
entidades, realizavam-se consultas e batiam “macumba”,
já que o termo indicava antigo instrumento musical de
percussão de origem africana, que passou a ser usado
onde se ouvisse o ritmo africano. A Macumba acabou por
alcançar a periferia das maiores cidades do país, levada
pela grande massa de trabalhadores migrantes,
ex-escravos que se viram sem trabalho, terras ou ofícios
quando a escravidão foi abolida em 1889.
Mas, esse movimento ainda era um conjunto de práticas
desconexas, sem um elemento de coesão que servisse para
que a macumba passasse a ser vista como uma nova
religião.
Ao mesmo tempo, começava o Espiritismo codificado por
Allan Kardec a tomar força em solo brasileiro,
espalhando-se os centros espíritas pelas capitais e
cidades brasileiras. Ou seja, todos esses fatos,
formavam um ambiente propício à instauração da Umbanda
no Brasil.
Em 1904, Paulo Barreto, membro da Academia Brasileira de
Letras sob o pseudônimo de “João do Rio”, lança o livro
“Religiões do Rio”, onde o autor enumera as
religiões e seitas existentes no Rio de Janeiro que,
naquela época era ainda a capital federal e centro
socio-político-cultural do Brasil. Nesse livro, o autor
demonstra os vários aspectos da manifestação da
religiosidade na Capital carioca discorrendo acerca de
igrejas, templos, terreiros de baixa magia, macumbas
cariocas, sinagogas, citando entrevistas e fatos
testemunhados nesses locais. É evidente que no livro,
apesar dessa ampla pesquisa, em nenhuma página aparece
algo sobre a Umbanda, uma vez que essa terminologia só
seria apresentada quando da incorporação do Caboclo das
7 Encruzilhadas, no médium Zélio de Moraes.
No ano de 1908, um rapaz de 17 anos, chamado Zélio
Fernandino de Moraes, natural de Niterói, no Estado do
Rio de Janeiro, preparava-se para o ingresso na carreira
militar, na Marinha do Brasil, quando foi acometido de
uma súbita paralisia que nenhum médico conseguia
identificar a causa. Em um determinado dia, ergue-se do
leito e declara: “Amanhã estarei curado”.
E assim ocorreu. No dia seguinte, levantou-se e voltou a
caminhar como se nada houvesse acontecido. Sua família,
não tendo tido nenhuma explicação médica, mesmo sendo de
formação católica, aceitou a sugestão de um amigo para
levar o jovem Zélio à Federação Espírita do Estado do
Rio de Janeiro (que naquela época tinha sede em
Niterói), em sessão presidida por José de Souza.
Zélio, nessa ocasião, incorporou um espírito, chamado
Caboclo das 7 Encruzilhadas, que dizia ter vindo
anunciar uma nova religião no Brasil. Era o renascimento
da Umbanda.
No dia seguinte, na casa de Zélio Fernandino de Moraes,
manifestou-se o Caboclo das 7 Encruzilhadas, que ditou
as bases do culto e passou à parte prática dos
trabalhos, curando enfermos.
Por outro lado, manifestou-se um preto-velho, Pai
Antônio, que vinha completar as curas. E também, o
Caboclo Orixá Malé, entidade com grande experiência no
desmanche de trabalhos de baixa magia. Muitos dos
presentes, ao final da reunião, estavam curados.
Nesse dia, estavam presentes quase todos os membros da
Federação Espírita, para verificar a veracidade das
declarações da entidade que se autodenominava Caboclo
das 7 Encruzilhadas.
A prática da caridade, no sentido do amor fraterno,
seria a característica desse culto, que teria por base o
Evangelho de Cristo e, como mestre supremo, Jesus.
O Caboclo das Sete Encruzilhadas nunca determinou
sacrifício de aves ou animais para fortalecer o poder do
médium, nem para homenagear entidades.
Assim, renascia a Umbanda, baseando seus princípios no
ensinamento de que o espírito atravessa o tempo em
diversas encarnações, sujeitando-se à lei do carma e,
através dos médiuns - aparelhos dos quais se utilizam as
entidades e guias da Umbanda para trazerem a mensagem
dos planos superiores - desenvolve o trabalho de ajuda
espiritual do qual a pessoa necessita, fortalecendo-a
com palavras de incentivo e fé, para que esta consiga
solucionar os problemas que esteja atravessando naquele
momento, ou superando os obstáculos que apareçam em seu
caminho.
Zélio se dedicou de corpo e alma a desenvolver o
trabalho orientado pelo Caboclo das 7 Encruzilhadas,
tendo por auxiliares o Caboclo Orixá Malé e Pai Antônio.
Estava assim fundada a Umbanda no Brasil.
O Caboclo das 7 Encruzilhadas recebeu ordens do Astral
Superior para fundar sete tendas para a propagação da
Umbanda. Através de Zélio de Moraes, fundou a Tenda
Nossa Senhora da Piedade, em homenagem à Maria, mãe de
Jesus, que foi raiz para outros sete principais núcleos:
Tenda Espírita Nossa Senhora da Guia, Tenda Espírita
Nossa Senhora da Conceição, Tenda Espírita Santa
Bárbara, Tenda Espírita São Pedro, Tenda Espírita Oxalá,
Tenda Espírita São Jorge, Tenda Espírita São Jerônimo. A
respeito do uso do termo espírita e de nomes de
santos católicos nas tendas fundadas, sua causa deriva
do fato de naquela época não se poder registrar o nome
Umbanda, e quanto aos nomes de santos, era uma maneira
de estabelecer um ponto de referência para fiéis da
religião católica que procuravam os préstimos da
Umbanda.
Zélio permaneceu por 55 anos administrando as atividades
da Tenda Nossa Senhora da Piedade, tendo após esse
período entregado a direção dos trabalhos as suas filhas
Zélia e Zilméa, mas continuando seu trabalho na cidade
de Boca do Mato, distrito de Cachoeira de Macacu, no Rio
de Janeiro, no templo que denominou de “Cabana de Pai
Antônio” ao lado de sua esposa Isabel, onde ainda
atendia diariamente os necessitados de auxílio físico ou
espiritual que o procuravam.
Zélio Fernandino de Moraes desencarnou no dia 03 de
outubro de 1975, após ter dedicado 66 anos de sua vida
ao trabalho dentro daquela que seria a religião dos
novos tempos do porvir.
(trecho extraído da Apostila Genuína umbanda, Volume I)
Nossa homenagem à nossa religião, ainda tão pouco
conhecida por muitos em seus fundamentos, mas dotada de
grande força espiritual. Que Oxalá continue dando força
às entidades espirituais de Luz para que a cada dia seu
progresso continue maior. Salve a nossa amada Umbanda!
Salve todos os espíritos dedicados à essa tarefa ao
longo desses 101 anos!
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