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Na sutileza dos
relacionamentos humanos
A vida
imortal se nos apresenta como a trajetória do Ser em busca de sua
real identidade. Assim caminha ele dos primórdios da consciência
coletiva aos intermediários da consciência individual para fundi-la,
depois, num processo ainda inatingível por nós, não apenas pela
beleza de sua essência mas pela exigência de sua magnanimidade.
(...)
Assim,
entendemos que na trajetória do Ser, nos períodos em que a roupagem
carnal o convida à comprovação para si próprio, das aquisições que
julga ter, ou que os transbordamentos do Amor Divino o convidam,
embalando-o na renúncia a descer para que outros subam, a criatura
se defronta com algumas situações que tivemos a ousadia de analisar.
Iniciamos,
então, com a Psicologia, por serem os pensamentos do Ser o seu
reflexo e, portanto, fundamental que se conheça as suas gravações
passadas, as atuais e como interagem nos estados conhecidos como
consciência e subconsciência. (...) E nessa mescla de comportamentos
individuais surgem o comportamento das multidões, as trocas de
idéias, interesses, as aquisições coletivas, os desregramentos que,
como desequilíbrio do prumo, conduzem, pelo choque de intenções, às
neuroses.
E o Ser
descansa seu interior na agitação do desconhecido; e o Ser procura a
Paz na desarmonia. E em meio a toda essa precipitação, nos
diferentes períodos psíquicos é que a criatura vai percebendo as
mesmas incógnitas, de ângulos diferentes; nesses estágios sucessivos
é que o Ser vai tendo o desenvolvimento das potencialidades
psíquicas.
Quis o
Criador, na explosão do seu Amor, que fôssemos individualidades
unidas pelas relações. Assim, a validade das relações entre os seres
é exatamente a de compormos o todo, ainda sem o percebermos. E nessa
relação Ser a Ser, seres e seres, é que as criaturas crescem, se
expandem, se entrelaçam, se amam e se solidificam.
Mas nem
todas as atitudes dos seres que se desviaram do equilíbrio os
conduziram a relacionamentos harmoniosos. Então, quis o Pai que na
figura do amigo estivesse representada parte da sua própria; quis o
Pai que fosse o amigo aquela parte do Ser que já se permite fundir à
outra porque conquistou o privilégio dessa interação. Ele é a força
que não deixa o ser desistir, mas o envolve no otimismo e na certeza
da vitória.
E tanto
entre amigos como entre aqueles que ainda não o são é fundamental
que se cuide das palavras, expressão sincera ou não do que o Ser já
reflete. A palavra que fere leva à ação que destrói, pois vem do
pensamento de angústia; mas o pensamento que eleva conduz o Ser à
palavra que alenta e à ação que enobrece.
E entre os
serem que devem conviver juntos, como a própria palavra diz, com
viver significa, implicitamente, se respeitar, quando ainda não
podemos amar, pois cremos que devemos ao menos respeitar a Criação
Divina como gratidão ao Pai, e os seres sejam, talvez sua obra mais
bela.
Mas, muitas
vezes, a chama do egoísmo leva as criaturas ao desrespeito de si
própria quando se entrega à maledicência, à maldade, à estagnação.
Por isso se faz necessário alertar o Ser para esses parâmetros de
desconhecimento das verdades. É dever dos seres a cooperação, e foi
nesse sentido que buscamos algumas palavras sobre o assunto.
Mas, como
já dissemos, as criaturas, as criaturas se constroem em agrupamentos
que constituem as sociedades, e a união delas, as civilizações.
Estas representam somatórios de aquisições, oportunidades de
aprendizado comum e elaboração mais aprimorada de um determinado
parâmetro evolutivo ainda por terminar. É nas diferentes
civilizações que o Ser vai adquirindo e firmando conceitos e idéias
que agora encouraça, definitivamente, em seu Ser.
Mas, apesar
de todas as aquisições fundamentais para a sobrevivência e progresso
do Ser, é na sutileza dos relacionamentos humanos que o progresso se
dá de forma real e eficiente, pois é nas relações entre as criaturas
que as divindades se encontram, na essência de cada um. É na fusão
dos corpos e das almas que está o significado maior da Vida: o
crescimento do Amor, o progresso em direção ao Amor. Viemos de um
todo, estamos contidos nele, ao mesmo tempo que o contemos em cada
um de nós.
Mas para
que esta caminhada se revista do esplendor que merece, se faz
necessário aliar o saber à sabedoria. A sabedoria é o saber já
sedimentado, vivido e, portanto, adquirido.
E pelo
saber, que leva à sabedoria, a criatura vai buscando a libertação de
sua ignorância sobre a Vida. Confunde, a princípio, a liberdade de
voar com a libertação de criar as próprias asas; confunde a licença
de executar seus desejos mais infantis com a capacidade de
superpô-los aos desejos universais. Por isso, a necessidade de se
pensar sobre esses dois vocábulos, semelhantes em sonoridade, mas
profundamente diversos em conquistas...
E o Ser, em
sua caminhada, busca a Verdade, que a princípio não conhece, mas
busca. Não percebe o Ser que a beleza e a justiça são aspectos da
Verdade nas diferentes dimensões e na relatividade do que concebemos
e vivenciamos. Não cogita que eles são um reflexo e um dos aspectos
da Harmonia Universal.
Mas nessa
conquista de valores espirituais o Ser, encarcerado sucessivamente
nos liames da matéria, tem a oportunidade de manipulá-la
inconscientemente para que leve à decomposição de tragédias morais,
seus desconhecimentos, seus desequilíbrios. E para que esse processo
seja suportável pelo Ser e viável para o espírito, quis o Pai que
entre os Homens surgissem os que cuidam desse depósito celestial dos
males da alma; e fez da Medicina o sacerdócio, a estação sublime da
máquina evolutiva. Ela é Religião porque o Ser se religa na dor, é
Ciência pela experimentação e é a Filosofia da Vida transposta em
fatos. Através da dor se altera a ciência de viver e a filosofia de
existir.
E em todos
os paradoxos de alegria, dor, tristeza e felicidade, vai o Ser
(frágil na contextura humana, porém abrigando em si a fortaleza
Divina), em estágios sucessivos que são eternos “renascer”a que
chama “vida e morte”, transpondo os obstáculos de si mesmo, vencendo
a dor de não ser e a angústia do querer.
São nesses
intervalos de matéria e espírito que o Ser, pelas polaridades a que
se submete, irá conhecer a polaridade que o originou!
Quisemos,
apenas, com nossas idéias, trazer um pouco da nossa Vida à de todos
os que conosco conviverem através da leitura; quisemos que nesses
momentos, então, fundíssemos nosso saber, nossos anseios e sobretudo
nosso Amor.
Permitam-me, pelo que expusemos e pelo significado da palavra, nos
declaramos, o amigo Albert Camus.
(Transcrição parcial do Capítulo Palavras Finais, constante do livro
Pensamentos sobre o Ser, de Albert Camus, psicografia de Nora T. M.
N. Sakamoto, páginas 165 a 171, 1ª edição, de dezembro de 1995).
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