Quaresma nos tempos da escravidão

Era de tardezinha e todos paravam para esperar a
refeição da noite, após o dia puxado de trabalho
na plantação de cana e no engenho. Bem próximo
da senzala, onde os negros ficavam, uma
mangueira frondosa estava carregada de frutos
amarelados e vermelhos. O perfume das frutas
invadia até a Capela, que ficava bem distante da
Casa Grande que parecia pequena de onde os
negros conseguiam enxergar. Lá de longe chegava
uma negra com seu avental de cozinha, trazendo
as notícias que vinham dos sinhozinhos.
Precisava de ajuda para arrumar a capela, deixar
tudo bem limpo para a semana inteira de rezas e
ladainhas. Um coro triste e lamentoso, que
seguia por horas, em muitos dias. Com a vinda de
visitas na fazenda fizeram doces em compotas de
muitas frutas. E os tais doces portugueses não
faltavam, e perfumavam a casa inteira. As
refeições deveriam ser menos reforçadas, e muito
peixe era consumido. De todo jeitos eram
preparados, assados, fritos e alguns ficavam em
grandes potes com azeite e especiarias. Vinha
muito peixe salgado em barris, era muito
demorado para fazer.
O caldo verde da noite sem carne de porco era
sem graça, mas fazia parte daquilo que pedia a
Igreja para os ricos fiéis. O cheiro de carne
não poderia se espalhar até domingo de Páscoa.
Aí sim, o banquete de carne retornaria para a
mesa. Além da comida alguns hábitos ficavam na
rotina. Era proibido durante a quaresma inteira:
cortar cabelos e unhas; vestir roupas coloridas;
assobiar ou cantarolar; varrer a casa em
determinadas horas; deixar qualquer imagem ou
quadro de santos descoberta, e outras proibições
que fogem da lembrança e registro.
O silêncio deveria exigido, isso valia para
todos até os negros escravos se conversassem
deveria em sussurros. O tambor que tocava em
muitas ocasiões ficaria calado, e também as
cantorias para os santos dos negros não podiam
ser feitos. Por muitas vezes até encontravam uma
gruta bem perto do rio, e lá poderiam ficar
livres da imposição dos senhores. Se acaso
fossem descobertos recebiam penosos castigos, e
para escapar da tirania não faziam seu culto e
faziam o que era mandado. Era silêncio.
Nessa época era ensinado entre os negros as
lendas dos orixás com as histórias dos santos
católicos. Diziam que Oxalá era Jesus, que foi
julgado pelas leis de Xangô. Iria ficar preso e
torturado, ser sacrificado sem que soubessem que
era o filho de Deus na terra. Mas ele sairia de
sua prisão voltaria para o Orum, para o céu e de
lá ouviria toda a prece, canto ou louvação.
Assim ele foi e nos deixou Yemanjá, Nossa
Senhora, que nos daria amparo e aliviaria nossas
dores e sofrimentos.
Assim quem sabe foi o jeito que os negros
passaram de geração em geração, por mais
trezentos anos, o sincretismo de santos e
orixás, que perdura até os dias de hoje. E a
quaresma continua calando muitos terreiros, de
uma forma velada, persistindo nas leis de
silêncio de os sinhozinhos impuseram aos seus
escravos.
Texto: Mãe Elizabeth M.N.Passos
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