O CABOCLO DAS SETE ENCRUZILHADAS
Por Leal de Souza
Cap.23 do livro O Espiritismo, A Magia e as Sete Linhas de Umbanda,
1933.
Se alguma vez tenho
estado em contato consciente com algum espírito de luz, esse
espírito é, sem dúvida, aquele que se apresenta sob o aspecto
agreste, e o nome bárbaro de Caboclo das Sete Encruzilhadas.
Sentindo-o ao nosso lado, pelo bem-estar espiritual que nos envolve,
pressentimos a grandeza infinita de Deus, e, guiados pela sua
proteção, recebemos e suportamos os sofrimentos com uma serenidade
quase ingênua, comparável ao enlevo das crianças, nas estampas
sacras, contemplando, da beira do abismo, sob as asas de um anjo, as
estrelas no céu.
O Caboclo das Sete Encruzilhadas pertence à falange de Ogum, e, sob
a irradiação da Virgem Maria, desempenha uma missão ordenada por
Jesus. O seu ponto emblemático representa uma flecha atravessando um
coração, de baixo para cima; a flecha significa direção, o coração
sentimento, e o conjunto significam orientação dos sentimentos para
o alto, para Deus.
Estava esse espírito no espaço, no ponto de intersecção de sete
caminhos, chorando sem saber o rumo que tomasse, quando lhe
apareceu, na sua inefável doçura, Jesus, e mostrando-lhe numa região
da terra, as tragédias da dor e os dramas da paixão humana,
indicou-lhe o caminho a seguir, como missionário do consolo e da
redenção. E em lembrança desse incomparável minuto de sua
eternidade, e para se colocar ao nível dos trabalhadores mais
humildes, o mensageiro de Cristo tirou o seu nome do número dos
caminhos que o desorientavam, e ficou sendo o Caboclo das Sete
Encruzilhadas.
Iniciou assim, a sua cruzada, vencendo, na ordem material,
obstáculos que se renovam quando vencidos, e dos quais o maior é a
qualidade das pedras com que se deve construir o novo templo. Entre
a humildade e doçura extremas, a sua piedade se derrama sobre
quantos o procuram, e não poucas vezes, escorrendo pela face do
médium, as suas lágrimas expressam a sua tristeza, diante dessas
provas inevitáveis a que as criaturas não podem fugir. .
A sua sabedoria se avizinha da onisciência. O seu profundíssimo
conhecimento da Bíblia e das obras dos doutores da Igreja autorizam
a suposição de que ele, em alguma encarnação, tenha sido sacerdote,
porém, a medicina não lhe é mais estranha do que a teologia.
Acidentalmente, o seu saber se revela. Uma ocasião, para justificar
uma falta, por esquecimento, de um de seus auxiliares humanos,
explicou, minucioso, o processo de renovação das células cerebrais,
descreveu os instrumentos que servem para observá-las, e contou
numerosos casos de fenômenos que as atingiram e como foram tratados
na grande guerra deflagrada em 1914. Também, para fazer os seus
discípulos compreenderem o mecanismo, se assim posso expressar-me,
dos sentimentos explicou a teoria das vibrações e a dos fluídos, e
numa ascensão gradativa, na mais singela das linguagens, ensinou a
homens de cultura desigual as transcendentes leis astronômicas. De
outra feita, respondendo a consulta de um espírita que é capitalista
em São Paulo e representa interesses europeus, produziu um estudo
admirável da situação financeira criada para a França, pela quebra
do padrão ouro na Inglaterra.
A linguagem do Caboclo das Sete Encruzilhadas varia, de acordo com a
mentalidade de seus auditórios. Ora chã, ora simples, sem um atavio,
ora fulgurante nos arrojos da alta eloqüência, nunca desce tanto,
que se abastarde, nem se eleva demais, que se torne inacessível.
A sua paciência de mestre é, como a sua tolerância de chefe,
ilimitada. Leva anos a repetir, em todos os tons, através de
parábolas, por meio de narrativas, o mesmo conselho, a mesma lição,
até que o discípulo, depois de tê-la compreendido, comece a
praticá-la.
A sua sensibilidade, ou perceptibilidade é rápida, surpreendendo.
Resolvi, certa vez, explicar os dez mandamentos da Lei de Deus aos
meus companheiros, e, à tarde, quando me lembrei da reunião da
noite, procurei, concentrando-me, comunicar-me com o missionário de
Jesus, pedindo-lhe uma sugestão, uma idéia, pois não sabia como
discorrer sobre o mandamento primeiro: Ao chegar à Tenda, encontrei
o seu médium, que viera apressadamente das Neves, no município de
São Gonçalo, por uma ordem recebida à última hora, e o Caboclo das
Sete Encruzilhadas baixando em nossa reunião, discorreu
espontaneamente sobre aquele mandamento, e, concluindo, disse-me:
Agora, nas outras reuniões, podeis explicar aos outros, como é vosso
desejo.
E esse caso se repetiu: - havia necessidade de falar sobre as Sete
Linhas de Umbanda, e, incerto sobre a de Xangô, implorei
mentalmente, o auxílio desse espírito, e de novo o seu médium, por
ordem de última hora, compareceu à nossa reunião, onde o grande guia
esclareceu, numa alocução transparente, as nossas dúvidas sobre essa
linha.
A primeira vez em que os videntes o vislumbraram, no início de sua
missão, o Caboclo das Sete Encruzilhadas se apresentou como um homem
de meia idade, a pele bronzeada, vestindo uma túnica branca,
atravessada por uma faixa onde brilhava, em letras de luz, a palavra
"CARITAS". Depois, e por muito tempo, só se mostrava como caboclo,
utilizando tanga de plumas, e mais atributos dos pajés silvícolas.
Passou, mais tarde, a ser visível na alvura de sua túnica primitiva,
mas há anos acreditamos que só em algumas circunstâncias se reveste
de forma corpórea, pois os videntes não o vêem, e quando a nossa
sensibilidade e outros guias assinalam a sua presença, fulge no ar
uma vibração azul e uma claridade dessa cor paira no ambiente.
Para dar desempenho à sua missão na terra, o Caboclo das Sete
Encruzilhadas fundou quatro Tendas em Niterói e nesta cidade, e
outras fora das duas capitais, todas da Linha Branca de Umbanda e
Demanda.
Voltar ao
índice
|