Minha Vida com a Vovó
Homenagem de
Fátima Damas à Vovó Maria Conga do Congo
Comemoração ao dia dos Pretos
Velhos( 13/05/06), realizada no Templo Umbandista da Vovó Maria
Conga do Congo, na sede da Congregação Espírita Umbandista do Brasil
no Rio de Janeiro.
Em 1961 eu
estava grávida de minha 1ª filha quando meu marido soube que em
frente ao hospital em que me tratava, uma senhora trabalhava com uma
Preta Velha chamada Maria Conga do Congo. Logo ele demonstrou o
desejo de ir conversar com a mesma e me levou junto.
Essa Preta Velha
disse que eu iria ter uma menina e me perguntou que nome seria dado,
indicando-nos o melhor.
Nunca mais lá
voltei.
Passaram-se 13
anos e eu já trabalhava num terreiro de Umbanda no Engenho Novo.
Numa noite ao
entrar no meu quarto para dormir, curvei-me para retirar a colcha da
cama, momento em que não mais consegui ter controle sobre meu corpo.
Uma entidade incorporou e saiu andando pela casa ao encontro do
Carlos.
Ele estranhou,
percebendo de imediato que não era o Preto Velho que se apresentava
há 4 ou 5 anos.
Essa entidade
pediu um banco para sentar-se e iniciou um longo diálogo entre os
dois, quando o Carlos perguntou-lhe quem ela era. A entidade
respondeu dizendo: " Você já me conhece há muitos anos",
lembrando-lhe o dia em que fomos à casa da médium com quem
trabalhava 13 anos atrás.
Ela revelou ao
Carlos que naquele dia, escolhera-me para seu médium, pois sentira
em mim as qualidades necessárias para o seu trabalho e sabia que
aquela senhora com que trabalhava teria poucos anos de vida.
Disse ainda a
Preta Velha: " Chegou o momento e aqui estou."
Pediu tudo que
precisava para trabalhar, incluindo um cantinho reservado. Informou
que toda 2ª feira às tantas horas estaria ali para iniciar o seu
trabalho de caridade.
Deu-nos uma
ordem de ir de terreiro em terreiro, até que encontrássemos um em
que ela tivesse condições de trabalhar. Nesse mesmo dia ela revelou
tudo que aconteceria em nossas vidas, inclusive que eu tinha o
compromisso de dirigir um terreiro, ao que o Carlos reagiu de forma
assustada, falando que de jeito nenhum isso se realizaria, visto que
eu não gostava da Umbanda e que só fazia os trabalho sob revolta e
protestos.
A Preta Velha
respondeu: " Ela vai pular, gritar, espernear, arrancar os cabelos e
tudo o mais que puder fazer, mas não vai escapar da tarefa que está
destinada à ela", acrescentou ainda
" a última
entidade que chegar pedirá o terreiro" e " enquanto vocês procuram o
terreiro para trabalhar, ficarei vindo aqui para orientá-los sobre a
espiritualidade".
Começava então o
nosso calvário. Passávamos os fins de semana visitando os terreiros,
mas nada da Vovó gostar de algum. Quando parávamos na busca, ela
perguntava " quem mandou parar?, continuem, continuem! ..."
Assim fui
conduzindo minha vida e ela atendendo às pessoas.
Quando
percebemos o terreiro estava montado desde o primeiro dia que ela
chegou. Compramos a casa velha em que morávamos e nos mudamos para
outro local.
O Carlos
perguntou à Vovó o que deveríamos fazer com a antiga casa e então
ela e o seu Tranca-Rua responderam " depois de tantos anos
trabalhando aqui, vocês agora querem nos expulsar"... " já demos o
que vocês queriam" ... "chegou a hora de fazer um terreiro maior e
abrir as portas para quem necessitar". Como ainda tendo dentro de si
uma dúvida que precisava ser esclarecida, meu marido indagou: "Vovó,
a senhora quando chegou pela primeira vez disse-me que a última
entidade que se apresentasse pediria um terreiro, mas até hoje isso
não aconteceu!". A Velha respondeu no seu jeito simples e peculiar:
" Sá Caio, depois de mim veio alguém?" " Não, Vovó.", disse
meu marido. A Preta Velha concluiu: " Então você não percebeu que
desde o primeiro dia que cheguei eu pedi o terreiro?! Quando mandei
que vocês "corressem gira", olhassem, ouvissem e calassem, era para
que não cometessem os mesmos erros que estavam identificando" ... "
eu não aceitaria cobranças por qualquer tipo de trabalho que fosse
executado no "meu cantinho", este mesmo cantinho que lhe pedi quando
cheguei e que você foi arrumando aos poucos. O terreiro foi fundado
no dia que cheguei, mas você não percebeu!"
Construímos este
prédio e ampliamos os nossos trabalhos espirituais, reinaugurando o
Templo Umbandista Vovó Maria Conga do Congo, no dia 26 de setembro
de 1999, com uma gira de confraternização de Ibeijada.
Hoje, 14 de maio
de 2004, estamos comemorando o dia de Preto Velho com muito amor no
nosso coração, muita gratidão e respeito por todas as entidades que
trabalham nesta casa e em especial à Vovó Maria Conga do Congo, que
me colocou na estrada certa, me doutrinou ... porque eu era muito
teimosa e indisciplinada, mas com muita paciência e carinho me
ensinou a respeitar e amar a Umbanda da forma com que amo, respeito,
conheço e defendo com todas as forças do fundo da minha alma.
Hoje estamos
comemorando 30 anos de trabalho juntas, em benefício dos irmãos
necessitados e em defesa daqueles desvalidos.
A minha vida tem
duas fases: a primeira antes da manifestação da Vovó e a segunda
depois da chegada dela.
Hoje não tomamos
nenhuma iniciativa sem consultar e ouvir seus conselhos sábios. Ela
é a minha fortaleza, meu farol e minha luz.
Sua bênção Vovó
Maria Conga!
Obrigada por
tudo que a senhora tem feito por todos nós!
Que Zâmbi lhe
ilumine cada vez mais!
Muitos beijos e
minha eterna gratidão!
Sua filha Fátima
Damas
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