Lições de
Preto-velho
Autor:
José Queid Tufaile
Cenário: reunião mediúnica num Centro Espírita. A reunião na sua
fase teórica desenrola-se sob a explanação do Evangelho Segundo o
Espiritismo. Os membros da seleta assistência ouvem a lição
atentamente. Sobre a mesa, a água a ser fluidificada e o Evangelho
aberto na lição nona do capítulo dez: "O Argueiro e a trave no
olho".
Dr.
Anestor, o dirigente dos trabalhos, tecia as últimas considerações a
respeito da lição daquela noite. O ambiente estava impregnado das
fortes impressões deixadas pelas palavras do Mestre: "Por que vês tu
o argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está
no teu?". Findos os esclarecimentos, apagaram-se as luzes
principais, para que se desse abertura à comunicação dos Espíritos.
Um
dos presentes fez a prece e deu-se início às manifestações
mediúnicas. Pequenas mensagens, de consolo e de apoio, foram dadas
aos presentes. Quando se abriu o espaço destinado à comunicação das
entidades não habituais e para os Espíritos necessitados, ocorreu o
inesperado: a médium Letícia, moça de educação esmerada, traços
delicados, de quase trinta anos de idade, dez dos quais dedicados à
educação da mediunidade, sentiu profundo arrepio percorrendo-lhe o
corpo. Nunca, nas suas experiências de intercâmbio, tinha sentido
coisa parecida. Tomada por uma sacudidela incontrolável, suspirou
profundamente e, de forma instantânea, foi "dominada" por um
Espírito. Letícia nunca tinha visto tal coisa: estava consciente,
mas seus pensamentos mantinham-se sob o controle da entidade, que
tinha completo domínio da sua psiquê.
O
dirigente, como sempre fez nos seus vinte e tantos anos de prática
espírita, deu-lhe as boas vindas, em nome de Jesus:
-
Seja bem vindo, irmão, nesta Casa de Caridade, disse-lhe
Dr.
Anestor.
O
Espírito respondeu:
"Zi-boa
noite, zi-fio. Suncê me dá licença pra eu me aproximá de seus
trabaios, fio?".
-
Claro, meu companheiro, nosso Centro Espírita está aberto a todos os
que desejam progredir, respondeu o diretor dos trabalhos.
Os
presentes perceberam que a entidade comunicante era um preto-velho,
Espírito que habitualmente comunica-se em terreiros de Umbanda. A
entidade comunicante continuou:
"Vós
mecê não tem aí uma cachaçinha pra eu bebê, Zi-Fio ?".
-
Não, não temos, disse-lhe Dr. Anestor. Você precisa se libertar
destes costumes que traz de terreiros, o de beber bebidas
alcoólicas. O Espírito precisa evoluir, continuou o dirigente.
"Vós
mecê não tem aí um pito? Tô com vontade de pitá um cigarrinho,
Zi-fio".
-
Ora, irmão, você deve deixar o hábito adquirido nas sessões de
Umbanda, se queres progredir. Que benefícios traria isso a você?
O
preto-velho respondeu:
"Zi-preto
véio gostou muito de suas falas, mas suncê e mais alguns dos que
aqui estão, não faz uso do cigarro lá fora, Zi-fio? Suncê mesmo, não
toma suas bebidinhas nos fins de sumana? Vós mecê pode me explicá a
diferença que tem o seu Espírito que bebe whisky, no fim de sumana,
do meu Espírito que quer beber aqui? Ou explicá prá mim, a diferença
do cigarrinho que suncê queima na rua, daquele que eu quero pitá
aqui dentro?".
O
dirigente não pôde explicar, mas ainda tentou arriscar:
-
Ora, meu irmão, nós estamos num templo espírita e é preciso
respeitar o trabalho de Jesus.
O
Espírito do preto-velho retrucou, agora já não mais falando como
caipira:
"Caro
dirigente, na Escola Espiritual da qual faço parte, temos aprendido
que o verdadeiro templo não se constitui nas quatro paredes a que
chamais Centro Espírita. Para nós, estudiosos da alma, o verdadeiro
templo é o templo do Espírito, e é ele que não deve ser profanado
com o uso do álcool e fumo, como vem sendo feito pelos senhores. O
exemplo que tens dado à sociedade, perante estranhos e mesmo seus
familiares, não tem sido dos melhores. O hábito, mesmo social, de
beber e fumar deve ser combatido por todos os que trabalham na Terra
em nome do Cristo. A lição do próprio comportamento é que é
fundamental na vida de quem quer ensinar".
Houve
profundo silêncio diante de argumentos tão seguros. Pouco depois, o
Espírito continuou:
"Desculpem a visita que fiz hoje e o tempo que tomei do seu
trabalho. Vou-me embora para o lugar de onde vim, mas antes queria
deixar a vocês um conselho: que tomassem cuidado com suas obras,
pois, como diria Nosso Senhor, tem gente "coando mosquito e
engolindo camelo". Cuidado, irmãos, muito cuidado. Deixo a todos um
pouco da paz que vem de Deus, com meus sinceros votos de progresso a
todos que militam nesta respeitável Seara".
Deu
uma sacudida na médium, como nas manifestações de Umbanda, e
afastou-se para o mundo invisível. O dirigente ainda quis
perguntar-lhe o porquê de falar "daquela forma". Não houve resposta.
No ar ficou um profundo silêncio, uma fina sensação de paz e uma
importante lição: lição para os confrades meditarem.
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