Ensinos de Pretos Velhos
(Homenagem ao Dia 13 de maio)
Recordo-me que numa noite fomos à Tenda Espírita do Pai Jerônimo,
localizada na rua Barão de Ubá, no bairro do Estácio, no Rio de
Janeiro, isso lá pelo início dos anos 70.
Em
lá chegando, de forma anônima, pela primeira vez, eu e meu marido
fomos levados a uma fila de consultas para uma Preta Velha a fim de
que recebêssemos passes.
Essa
Preta Velha começou a falar o que para mim pareciam ser
"abobrinhas", deixando-me muito chateada. Tomada por esse sentimento
diante da humilde servidora espiritual, naquele momento comecei a
sentir vibrações. Visto isso, a Velha indagou-me se eu trabalhava em
algum Centro. Respondi que não.
Resolvi sair dali e dirigi-me ao quintal da Casa, sendo seguida de
Pai Jerônimo que me pedia para que eu não impedisse a incorporação.
Eu transpirava muito, relutando e dizendo não, não, não ... Eu
desejava sair dali, rapidamente.
O
dirigente então pegou em minha mão e nesse instante Vovó Maria
Conga, como que ignorando meu desejo de não "recebê-la" , chegou
bastante aborrecida em razão de minha atitude inadequada para com
aquela Preta Velha das "abobrinhas".
Vovó
Maria Conga entrou pelo Terreiro e foi até o Congá. Cumprimentou o
zelador que lhe perguntou se ela queria trabalhar ali. Vovó
respondeu-lhe agradecendo seu convite, mas declinou dizendo que já
possuía o seu cantinho. Indo à frente do Congá, despediu-se e foi
embora, deixando-me com fortes dores no corpo que me faziam gritar.
Pai
Jerônimo, compadecido de meu estado, tentava de todas as maneiras
retirar a vibração de cima de mim, mas suas tentativas não tiveram
êxito. Voltei a casa desesperada de dores físicas e contrariada com
tudo que acontecera. Lá chegando, ela incorporou mais uma vez e
novamente muito zangada. Ela falou ao Carlos, meu esposo: " não foi
aquilo que eu mandei ela fazer!", " ela não deve testar
entidade alguma!", " da próxima vez, se ela tentar repetir aquela
atitude, eu a colocarei numa cama de hospital para que aprenda a
respeitar qualquer entidade e qualquer Tenda que ela vá!". Essa foi
a primeira e a última vez que eu desobedeci a suas ordens. Após isso
passei a ter mais respeito e a sentir mais carinho por ela.
Em
verdade a ida à Tenda do Pai Jerônimo era o cumprimento de uma ordem
que eu recebera de Vovó Maria Conga, de "correr gira" para encontrar
um local para que ela pudesse trabalhar. Entretanto, eu
desconsiderei as recomendações que ela me dera, as quais
representavam o método a ser empregado nesse processo de busca:
ouvir, ver e não criticar nada!
Tive
a segunda lição, que tento expor em minha singela homenagem aos
Pretos Velhos, numa madrugada chuvosa e bem fria - duas horas da
manhã!.
Forçados pela ordem de Vovó Maria Conga, como disse acima, de
visitar possíveis Terreiros onde ela pudesse trabalhar, estávamos eu
e marido, acompanhados de um casal amigo Athayde e Cléa, novamente "
em campo".
Athayde lembrou da existência de um Terreiro antigo. Este ficava
numa rua totalmente deserta e íngreme, de acesso muito difícil,
obrigando-nos a segurar nos montes de capim para não cairmos. Até o
som dos atabaques que nos facilitaria identificar sua localização
não era ouvido por nós. Finalmente olhei e vi um Terreiro grande, de
edificação antiga e mal iluminada.
Lá
dentro encontramos duas moças sentadas num banco comprido e ao lado
do Congá estava um Preto Velho dando uma consulta à outra moça
igualmente.
Olhando tudo a nossa volta, percebi que o local não contava nem
mesmo com a assistência valiosa de um cambono.
O
médium - um negro idoso - vestia o uniforme da Umbanda, uma
vestimenta simples e bem surrada, junto com seu chapéu de palha bem
castigado pelo tempo. Tudo espelhava humildade: o médium, o
uniforme, o chapéu, a rua e a Tenda.
Fui
então pedir a bênção desse servidor. Quando curvei-me, senti que a
chuva, escapando pelas goteiras da Casa, molhava minhas costas.
Nesse momento, que não me sai da mente até hoje, notei que o Velho
estava todo molhado. A cena doeu-me na alma e disse ao Preto Velho:
" Vovô, o senhor me permite colocar o seu banquinho em outro local
que não tenha goteiras?" Ele respondeu: " Filha, olhe para cima e
você verá que não há nenhum local onde a chuva não possa penetrar.
Tanto faz ficar aqui onde estou ou ir para outro lugar onde você
tenha vontade de me colocar - será a mesma coisa!".
Seguindo a sugestão do Preto Velho olhei para cima e vi que o
telhado era uma grande peneira!
Calei-me e minhas lágrimas, oriundas do exemplo de abnegação e
modéstia do Velho, se misturaram à água da chuva que caía.
Ao
fitar-me, falou o Velho: " Não fique assim não minha filha. O teu
coração é muito grande, mas nós só podemos fazer aquilo que está ao
nosso alcance. O que está passando pela sua cabeça, eu sei que você
não pode realizar. A sua visita à essa hora da noite, com chuva e
frio, já me mostrou o amor que você tem pela Umbanda e o que eu
posso fazer por você, é pedir ao nosso Pai Oxalá que te abençoe,
dando a você saúde e força para que você continue na sua busca a
fim de cumprir a missão que a minha mana colocou em suas mãos".
Fiquei surpresa, pois eu não fizera nenhum comentário sobre o que a
Maria Conga me mandara fazer, sobre a necessidade de "correr gira".
Eu
agradeci a entidade por tudo que nos desejou e saímos para a
continuação de nossa "busca".
No
carro eu não conseguia conter o choro de gratidão a Deus por ter-me
apresentado aquele Preto Velho, anônimo, de "uniforme surrado",
chapéu de palha gasto, chamado Pai Joaquim das Almas. O Velho me deu
uma lição de sabedoria, amor, fé, caridade, e muita, muita
humildade.
Com
a cena na mente, de tudo que se passou comigo, cheguei a seguinte
conclusão: Para se praticar a caridade, só precisamos de amor,
boa vontade e uma verdadeira Entidade. Não precisamos de Terreiros
cheios, grandes, bem edificados, nem de muitos aparatos.
Ali
naquele Terreiro, sem um número significativo de médiuns e de
consulentes e sem estrutura material, tive a lição fundamental para
a prática na vida espiritual - a humildade -, tive a base que me
nortearia no meu relacionamento com as Entidades e com os irmãos de
crença e o ímpeto de estudar e pesquisar a fim de saber o que eu
estava fazendo dentro da Umbanda.
Do contato com o Preto Velho, afastado dos olhos das
platéias numerosas e da pompa enganadora, saí impregnada do
sentimento revelado nas máximas do inesquecível
Caboclo das Sete Encruzilhadas: " Umbanda é a
manifestação do Espírito para a prática da Caridade", " Não cobrar,
não matar, vestir o branco, evangelizar e utilizar as forças da
natureza".
Muita Paz.
Fátima Damas
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