DIVERSIDADE DE
RITUAIS UMBANDISTAS
Manoel Lopes
É muito comum ouvirmos de pessoas que não são
umbandistas, que a umbanda é uma grande confusão.
Algumas chegam a falar que a umbanda é “casa da mãe Joana”, onde
cada um faz o que quer.
Não conseguem entender o motivo de um Terreiro não utilizar
atabaques enquanto outros utilizam; outros usam roupas coloridas
enquanto outros usam somente o branco, outros não trabalham com
exus, enquanto outros fazem questão de trabalharem, outros criticam
com rigor o uso de sangue e sacrifícios de animais, enquanto outros
utilizam estes elementos.
Chamamos isto de Diversidade de Rituais.
Quando iniciamos nossa caminhada na umbanda na década de setenta,
tivemos oportunidade de visitarmos alguns terreiros e naquela época
já percebemos a grande diferença existente entre os rituais de cada
Terreiro.
Infelizmente existia naquela época um grande preconceito, e eram
comuns comentários de que determinada casa não era de umbanda,
outros falavam que determinada casa era mais forte que a outra, o
estudo era muito raro e na maioria das vezes desprezado pelos
dirigentes.
O tempo passou e por volta de 1997 começamos um trabalho de
divulgação da umbanda pela internet através da lista de debates
Saravá Umbanda.
Foi a partir desta experiência que percebemos o grande preconceito
existente entre os umbandistas.
A Internet veio facilitar o contato, o estudo e a divulgação das
várias formas de se trabalhar na umbanda.
A diversidade de rituais era desconhecida por muitos, e tivemos
oportunidade nestes 12 anos de presenciar terríveis disputas e
choques entre umbandistas, cada um querendo afirmar que a “sua”
umbanda era a verdadeira umbanda. Em alguns momentos as agressões
chegavam ao extremo, passando de agressões verbais para processos
judiciais.
Com o passar do tempo e com o convívio nas listas, algumas pessoas
passaram a entender que a umbanda, embora seja única, não possui uma
única doutrina.
Que não existe umbanda melhor ou mais forte que outra.
Estas pessoas começaram então a respeitar e entender a diversidade
de rituais existentes em nossa religião.
Em 2006 criamos a RBU que atualmente possui mais de 10.300
integrantes (agosto/2009) e é com tristeza que continuamos a
verificar que a grande maioria das pessoas ainda desconhece esta
realidade de nossa religião.
Este pequeno texto tem a finalidade de mostrar para as pessoas de
uma maneira simples e racional como que entendemos a Diversidade de
Rituais existentes na umbanda.
O conteúdo deste texto é apresentado no curso de doutrina umbandista
“Umbanda Os Sete Reinos Sagrados” que desenvolvemos de forma
gratuita no Núcleo Mata Verde e agora através do portal EAD do
Núcleo Mata Verde ( www.mataverde.org/ead ), no curso a distancia é
cobrada uma pequena taxa para ajudar na manutenção do site.
Qual a diferença entre a Umbanda e as demais religiões tradicionais?
O que é uma estrutura piramidal hierárquica autoritária?
Várias organizações possuem como forma de organização e comando uma
estrutura autoritária (centralizadora). Podemos citar como exemplo,
a Igreja Católica que segue rigidamente as orientações de Roma, do
Vaticano e que possui no Papa o chefe da igreja.
Outro exemplo é o dos militares (Forças Armadas), que possuem uma
hierarquia rígida e um comando único.
Podemos enquadrar dentro desta estrutura hierárquica autoritária
aquelas religiões ou filosofias que possuem uma doutrina rígida.
Normalmente seguem algum livro ou livros e possuem muita dificuldade
em fazer qualquer alteração doutrinária em função do modelo
hierárquico autoritário.
Por exemplo, o “Espiritismo” (chamado popularmente de Kardecismo)
No ápice da Pirâmide está a "doutrina", o Pentateuco Kardequiano, e
que por condição dos próprios espíritos que apresentaram a doutrina,
não pode ser alterado em hipótese alguma sem a “concordância
universal dos espíritos”.
A doutrina espírita é do século XIX ( 1857).
Este autoritarismo doutrinário se reflete em várias situações. É do
conhecimento público os vários autores espíritas que ficaram
proibidos de publicarem suas obras por serem considerados “não
doutrinários”.
Espíritos foram taxados de enganadores e mistificadores e seus
livros psicografados deixaram de ser considerados espíritas. Não
vamos citar os nomes, mas basta realizarem uma pesquisa na Internet
e encontrarão vários casos.
O uso de recursos como cromoterapia, uso de cristais, incensos,
banhos, equilíbrio dos chakras, magia, apometria, reiki, e muitos
outros assuntos não são considerados “doutrinários”, portanto os
Centros que utilizam alguns deste recursos não são casas espíritas,
podendo no máximo serem chamados de centros espiritualistas.
Estrutura em rede.
O que é Estrutura em rede?
Desde a década de 20, quando os ecologistas começaram a estudar
teias alimentares,o padrão de rede foi reconhecido como o único
padrão de organização comum a todos os sistemas vivos:"Sempre que
olharmos para a vida, olhamos para redes" (Fritjof Capra - A Teia da
Vida).
As redes, basicamente descritas como conjuntos de itens conectados
entre si são observadas em inúmeras situações, desde o nível
subatômico até as mais complicadas estruturas sociais ou materiais
concebidas pela humanidade.
Átomos ligam-se a outros na formação de moléculas, seres vivos
dependem de intrincadas redes de reações químicas e de interações
protéicas. Vasos sangüíneos e neurônios formam redes essenciais para
organismos complexos. Construções humanas como a distribuição de
água, energia elétrica e telecomunicações podem ser vistas como
redes, da mesma forma que estradas, rotas marítimas e aéreas,
percursos feitos para entrega de bens e serviços. Relações sociais e
negócios conectam pessoas e organizações segundo os mais variados
padrões. Computadores, bancos de dados, páginas web, citações
bibliográficas e tantos outros elementos compõem suas redes
cotidianamente.
Foi a partir destes conceitos que criamos a RBU – Rede Brasileira de
Umbanda. ( www.rbu.com.br )
Todos sabem que a umbanda possui vários fundamentos, entre eles:
Fundamentos Africanos, Espíritas, Católicos, Indígenas, Teosóficos,
Hinduístas, etc...
“A Umbanda é uma religião universalista”.
Vamos voltar nossa atenção para a imagem acima. Fizemos um desenho
de uma rede plana e para ilustrar o que foi dito acima incluímos
somente quatro fundamentos básicos de nossa religião: Africano,
Católico, Espírita e Indígena.
Reparem que existem alguns “pontinhos” escuros nesta rede, são os
“nós” da rede e que representam os diversos Terreiros de Umbanda
existentes.
Cada “nó” ou Terreiro tem um conjunto diferente de fundamentos, o
que acaba refletindo no ritual seguido pelo Templo.
Por exemplo:
Terreiro (1)
O Terreiro identificado por (1) tem uma forte influência Católica.
São Terreiros que possuem no congá muitas imagens de Santos, Anjos,
Arcanjos, Jesus, Espírito Santo, etc...
É comum nestes Terreiros as procissões para São Jorge, Nossa Senhora
Aparecida e demais Santos Católicos.
Os Pontos Cantados sempre relacionam os Orixás aos Santos, e muitos
chegam a afirmar que o Santo e o Orixá são a mesma coisa.
As cerimônias são semelhantes aos da igreja católica: Batismo,
Confirmação (Crisma), Casamento etc...
Sempre lembrando as cerimônias católicas.
Algumas casas não trabalham com Exú, algumas chegam a identificar o
Exú ao demônio.
Terreiro (2)
O Terreiro identificado como (2) está bem próximo dos fundamentos
africanos, isto significa que naquele Terreiro os rituais africanos
estão presentes de forma significativa. São Terreiros de umbanda que
tem uma forte influência do Candomblé e do Culto Omoloko, alguns
cultuam os Orixás de forma bem próxima ao do Candomblé, oferecem
animais, usam inclusive sangue em alguns rituais, alguns chegam a
afirmar que não são cristãos. Possuem rituais como: borí, deitada,
mão de pemba, mão de faca, etc.. Exú é cultuado como um Orixá.
O uso dos atabaques é imprescindível.
Terreiro (3)
Os Terreiros identificados como (3) tem uma forte influência da
doutrina espírita.
A doutrina espírita é estudada pelos seus integrantes.
Caboclos, Pretos Velhos, Baianos, Exús, etc... são considerados
espíritos em evolução e que já estão libertos do ciclo
reencarnatório.
No congá não fazem uso do sincretismo religioso, ou seja, não
existem imagens de Santos; normalmente Orixás são entendidos como
espíritos de muita evolução, sendo considerados pura energia.
Orixás nunca incorporam.
De forma alguma aceitam o uso de sangue ou sacrifício de animais
como oferenda para os Orixás.
Nestes Terreiros utilizam somente roupa branca; rituais de origem
africana são totalmente desconhecidos nestes Terreiros.
Conceitos como mediunidade, passes, vibrações, obssessores são muito
comuns.
Em alguns os Caboclos e Pretos Velhos fazem uso do fumo.
Terreiro (4)
Nestes Terreiros a presença de rituais de origem indígena é muito
forte. Normalmente Caboclos comandam todos os Trabalhos, é comum o
uso de charutos para defumação ou pajelança.
Em alguns os nomes utilizados internamente são de origem Tupy
antigo, e valorizam muito a tradição indígena brasileira.
Conclusão:
Como podem verificar não esgotamos as possibilidades, os fundamentos
existentes na umbanda são muitos e naturalmente que não se
apresentam de forma única como descrevemos acima, eles se fundem em
proporções diferentes e dão as características de cada Terreiro, a
egrégora, a vida, o axé de cada casa.
Não podemos de maneira alguma aceitar os absurdos que muitas vezes
acabam na coluna policial dos jornais, mas precisamos neste momento
em que existe uma grande intolerância para com a nossa religião nos
unirmos e respeitarmos a maneira de trabalhar de cada Terreiro.
Se estudarmos a história do Movimento Umbandista, verificaremos que
embora os homens tenham insistido, durante vários anos, em enquadrar
a Umbanda dentro de um sistema hierárquico autoritário (através de
Federações, doutrinas, códigos etc...), ela sempre resistiu mantendo
sua estrutura em rede.
Precisamos entender que a Umbanda é uma religião nova, brasileira e
que os Orixás nos presentearam com esta maravilhosa religião.
Podemos afirmar categoricamente que a UMBANDA é uma religião do
futuro.
Uma religião que permite que cada um busque aquele Terreiro que fale
mais alto ao seu coração sem deixar de ser umbandista.
Se lembrarmos as palavras do Caboclo das 7 Encruzilhadas, veremos
que os alicerces da Umbanda são a liberdade e a igualdade, gerando
as mesmas oportunidades para todas as pessoas e espíritos virem
trabalhar e evoluir.
Manoel Lopes –
Dirigente do Núcleo Mata Verde
www.mataverde.org
São Vicente, 30/08/2009
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